Valdir nasceu na capital paulista no dia 14 de outubro de 1956, ao meio-dia de um domingo. Era o filho caçula e “temporão” de uma família de 5 pessoas e por causa da grande diferença de idade para os irmãos mais velhos, foi uma criança que aprendeu a brincar sozinho, apenas com seus pensamentos e imaginação. Tenho isso em comum com ele, ambos somos filhos caçulas e temporões… por isso a criatividade era nossa maior companheira.
Sua infância e adolescência transcorreram tranquilas. Filho de fotógrafo, aprendeu desde cedo a arte e a magia da fotografia. Para uma criança criativa como ele, foi a descoberta de um novo mundo. Como nasceu com espírito artístico, aprendeu sozinho a tocar violão aos 6 anos de idade. Seus pais, percebendo o seu dom, o matricularam em um Conservatório Musical.
Porém, para uma criança que estava acima da média musical da sua idade, ele não se conformava em aprender o básico, pois afinal ele já tocava e aprendia as músicas populares só de ouvi-las. Não aguentou por muito tempo a limitação do aprendizado cartesiano e pediu para sair. E livre, se dedicou a melhorar sua técnica e a aprender a compor.
Nas rodas de amigos e nas escolas onde estudou, sempre era o “cara” do violão que tocava qualquer tipo de música. Na faculdade, não foi diferente. Foi nessa época que nossos caminhos se cruzaram.
Voltando um pouco no tempo, enquanto estudava no Colégio Objetivo da Av. Paulista nos anos 70, ganhou dois anos seguidos o FICO – Festival Interno do Colégio Objetivo, com suas composições.
E foi a música que nos uniu. Conheci o Valdir tocando violão em uma festa na casa de meus primos, que eram vizinhos dele no bairro do Alto da Boa Vista, em São Paulo. Valdir era um músico incrível, tocava muitos instrumentos, mas as cordas eram sua predileção. E foi assim que ele me conquistou.
Me lembro nitidamente desse dia… ele estava tocando “Travessia” de Milton Nascimento, um clássico da MPB e fui atraída como um imã para o seu lado para cantar junto com ele. No fim da noite ele me disse que eu tinha ritmo e boa afinação e quase desmaiei de empolgação… tínhamos pouco mais de vinte anos, muitos sonhos e ilusões!
Nessa época ele já era empreendedor e possuía um lava-rápido no estacionamento do primeiro hipermercado da cidade, com diversos funcionários.
Ele nunca foi empregado de ninguém. Seu único registro em carteira, foi de um estágio enquanto cursava engenharia. Sempre foi um bom líder, um ótimo chefe e um professor generoso.
Começamos a namorar no ano de 1978 e seguimos juntos até seu falecimento em dezembro de 2019. Foram 42 anos de companheirismo e de muito amor.
Ele tinha alma de artista e apesar de ter estudado engenharia, sempre atuou como fotógrafo profissional tendo se especializado em fotos de estúdio, publicidade e show business. Ele amava a arte. E a música sempre permeou nossa vida.
Ainda nos anos 70, enquanto éramos namorados, participamos de uma banda de rock, criada por um amigo meu, que ao conhecer o Valdir, percebeu sua habilidade em tocar violão e guitarra. Porém como não conseguíamos um contrabaixista bom para nos acompanhar, ele assumiu essa posição e se adaptou rapidamente ao instrumento.
Tenho certeza de que se tivéssemos nascido nos tempos atuais, teríamos seguido a carreira musical, principalmente ele, que amava tocar. Porém naquela época, isso não era visto como carreira segura, por isso ele foi estudar engenharia.
No início dos anos 80, seu pai adoeceu e foi diagnosticado com ELA – Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença autoimune degenerativa e por isso, ele assumiu a empresa fotográfica e a reformulou, ampliando o estúdio e o laboratório fotográfico para atender outros fotógrafos profissionais, além do seu próprio trabalho.
O namoro continuou e em 1983, nos casamos. Onze meses após o nosso casamento, nasceu nossa primeira filha, Débora. Ele se apaixonou por ela desde o momento em que fizemos o teste de gravidez. E seguiu assim por sua vida toda.
Na tentativa de termos o nosso segundo filho passamos por muitas experiencias das perdas. Primeiro, um aborto espontâneo, depois duas filhas que nasceram e logo perderam a vida e mais dois filhos que nasceram mortos.
A cada perda ele se tornava mais companheiro, mais amante e mais amigo. Até que em nossa última perda, veio dele a ideia da doação de órgãos de nossa filha Gabrielle. E assim decidimos juntos pela doação.
Quis o destino que não conseguíssemos doar seus órgãos, mas foi por meio dela que o nosso sofrimento se transmutou, tornando-se um propósito.
Assim nasceu o Instituto GABRIEL, com a nossa vontade de levar à frente um projeto de ajudar a salvar vidas por meio da doação de órgãos. E com a mesma autodeterminação, criatividade e inteligência, ele se capacitou para desenvolver atividades que desconhecia, mas que eram necessárias à gestão do Instituto. Juntos aproveitamos nossas habilidades, o meu conhecimento administrativo financeiro e ele a da criação.
Ele sempre foi um apaixonado pela tecnologia e aprendeu sozinho a desenvolver atividades de TI, programação, web designer e mais tarde dominou as redes sociais.
São muitos os projetos e programas que criamos juntos, mas um dos que ele mais se empolgava é o Salão de Humor sobre Doação de Órgãos.
Esse projeto, foi criado em 2008 a três mãos, minha, dele e do amigo e artista gráfico Mario Mastrotti. Era um de seus preferidos, mas que teve que passar por um período sem ser realizado, pois necessitava de reformulações internas e externas.
Quando ocorreu o seu falecimento, resolvi homenageá-lo retomando o projeto. E em 2022, ele voltou com a força total.
Hoje ele deve estar orgulhoso em ver aonde chegamos. Um salão reconhecido e consagrado e que se tornou internacional graças ao esforço conjunto de uma equipe fantástica que me acompanha e que está dando continuidade ao projeto.
Não foi à toa que escolhemos o dia de seu aniversário para divulgar a lista dos premiados deste ano. Principalmente aos que receberão o prêmio especial “Valdir de Carvalho” para a categoria de Caricaturas.
Hoje, após sua morte, continuamos a honrar sua memória, fortalecendo a missão que nos foi entregue nesta vida.
Neste ano de 2026, ele completaria 70 anos. Mesmo não estando mais entre nós, tenho certeza de que ele vibra por cada obstáculo vencido e cada vitória conquistada por mim, pela Débora, nossos netos Bianca e Thomás e pelo Instituto GABRIEL.
Por isso, falar sobre Valdir, demanda tempo, pois ele fez muitas coisas durante seus 63 anos de vida. Mas, eu que tive o privilégio de conviver por 42 anos com ele, posso resumir dessa forma, Valdir foi um homem bom, cheio de virtudes e defeitos como qualquer um de nós. No entanto, seus pontos negativos nunca superaram os positivos. Ele amou e foi muito amado também. Ajudou muita gente e emprestou seu talento à muitas coisas. Foi sempre generoso, gentil e bem-humorado. Foi um homem honrado.
Juntos, construímos uma família linda e um legado intangível. Escrevemos e colocamos em prática muitos projetos para ajudar pessoas em lista de espera por transplante. Dedicamos grande parte das nossas vidas para isso e com ele eu aprendi o desapego e a paciência.
Esse é o ser humano Valdir de Carvalho, pessoa íntegra, de valores fortes e de coração generoso. E, sem dúvida, fomos felizes por termos um ao outro.
Sua felicidade se completou quando ele se tornou avô dos nossos netos Bianca e Thomás.
E foi assim que a vida, que me privou de muitas coisas, me presenteou com o melhor companheiro de vida que alguém poderia ter, o nosso eterno Valdir.
Sobre a autora

Maria Inês Toledo de Azevedo Carvalho, nascida na Capital de São Paulo em 1957, secretária executiva de formação e empresária por opção, atuou como secretária em diretorias de grandes empresas e em 1986, tornou-se sócia na empresa Ômega Produções Artísticas. Em 1999, ingressou no empreendedorismo social, fundando junto com seu marido, Valdir de Carvalho, o Instituto GABRIEL, do qual é presidente. Possui formação como Conselheira Nacional de Saúde pela UFMG. Foi Conselheira Municipal de Saúde Municipal entre 2010 e 2013. É autoria do livro “Gabrielle, sementes de esperança” que conta a trajetória da criação do Instituto GABRIEL. Participou como speaker do TEDx Indaiatuba em 2024 com o tema “O que nos une”. É membro do Comitê do Programa Indaiatuba Doa Vida da Secretaria Municipal de Saúde de Indaiatuba.

Muito bom!