Do programa “Você Decide” às redes sociais, uma reflexão sobre informação, responsabilidade e o papel de cada um na construção de uma sociedade mais consciente.
Ao revisitar a história do Instituto GABRIEL durante as comemorações de seus 25 anos, tive a oportunidade de compartilhar um vídeo que marcou não apenas a trajetória da nossa Organização, mas também a história da doação de órgãos no Brasil: o programa Você Decide, exibido pela TV Globo em 1998, inspirado na história real de Maria Inês e Valdir, fundadores do Instituto GABRIEL.
O episódio apresentava um dilema que, até hoje, desperta reflexões. O casal descobria que a filha havia sido diagnosticada com anencefalia, uma condição incompatível com a vida. Diante dessa notícia, surgia a pergunta que mobilizou milhões de brasileiros: interromper a gestação ou levá-la até o fim para que, após o nascimento, fosse possível doar os órgãos da bebê?
Naquela época, quem decidia o desfecho era o público. Bastava pegar o telefone, ligar para um número 0800 e votar. O final mais escolhido era o que ia ao ar. Não havia redes sociais, curtidas ou caixas de comentários. Havia apenas uma ligação e, talvez, um pouco mais de tempo para refletir antes de escolher.
Ao publicar o programa completo, imaginei que despertaria nostalgia. E despertou. Mas despertou também algo muito característico dos nossos dias: opiniões.
Vieram comentários emocionados, lembranças, críticas, elogios e interpretações completamente diferentes umas das outras. Cada pessoa enxergou a mesma história por uma perspectiva diferente.
Entre tantas mensagens, uma me fez refletir: “Esse programa poderia voltar.”
Pensei por alguns segundos antes de responder, pois na verdade vivemos um enorme Você Decide. A diferença é que o programa nunca termina.
Todos os dias alguém escolhe um lado, defende uma ideia, sentencia uma pessoa, compartilha uma notícia, interpreta um fato e publica sua versão da verdade. Nunca foi tão fácil falar.
A internet nos deu um presente extraordinário: informação ao alcance das mãos. Aproximou pessoas, democratizou o conhecimento e deu voz a quem antes não era ouvido. Mas, como todo presente poderoso, veio sem manual de instruções.
No mesmo lugar onde encontramos pesquisas científicas, encontramos boatos. Ao lado de especialistas dedicados, surgem especialistas de ocasião. Em poucos segundos, uma opinião atravessa o país. E, infelizmente, uma mentira costuma correr mais rápido do que uma verdade cuidadosamente explicada.
Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo: aprender que opinião merece respeito, mas fato merece compromisso.
É justamente nesse cenário que o Instituto GABRIEL trabalha diariamente. Falar sobre doação de órgãos e prevenção em saúde exige muito mais do que boa vontade. Exige responsabilidade, informação baseada em evidências e coragem para enfrentar a desinformação que circula na velocidade de um clique.
Às vezes penso que a maior tecnologia não é a inteligência artificial, nem os algoritmos das redes sociais. É a capacidade humana de discernir.
De parar, De conferir De mudar de ideia quando os fatos mostram um caminho diferente.
Em 1998, o público decidia apenas o final de um programa de televisão.
Hoje, cada comentário, cada compartilhamento e cada informação que escolhemos acreditar ajudam a decidir algo muito maior: o tipo de sociedade que estamos construindo.
E, quando as luzes da tela se apagam, diferente do Você Decide, não aparecem os créditos finais. Porque a história continua.
E, todos os dias, nós também escrevemos um pedaço dela.
Sobre a Autora

Vane Lopes, Profissional com vasta experiência em vendas e atendimento ao cliente. Sua criatividade e habilidade de comunicação são seus pontos fortes. Além de sua carreira, ela é mãe de dois filhos, sendo o mais novo portador de deficiência intelectual. Há 30 anos, dedica-se ativamente a causas sociais, tendo atuado na fundação de uma OSC que promove a inclusão de pessoas com deficiência. Em 2008, enfrentou o diagnóstico de doença renal, mas em 2015 realizou um transplante bem-sucedido sendo a sua irmã como doadora. Atualmente é coordenadora de projetos e gestora de comunicação do Instituto GABRIEL.

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