Doar sangue também é um gesto de cuidado consigo mesmo: meu encontro inesperado com a hepatite C

Todos os anos, em dezembro, eu faço uma doação de sangue. Logo em seguida, faço uma tatuagem. E assim têm sido meus “dezembros” há bastante tempo: um gesto de solidariedade seguido de uma marca pessoal.

Em 2025, porém, essa tradição ganhou um capítulo inesperado.

Recebi uma cartinha do Hemocentro da Unicamp informando que meu sangue havia sido descartado e que eu precisava realizar exames complementares.

A primeira reação foi uma mistura de preocupação e ansiedade. Fui correndo até o Hemocentro, onde fui recebido com muito cuidado. A orientação foi tranquilizadora: “É só rotina. Fique tranquilo. Muita coisa é falso-positivo.”

Eu entendia a explicação. Mas, quando o assunto é a nossa própria saúde, nem sempre é fácil manter a tranquilidade.

Fiz os exames complementares, assim como minha esposa, que também estava temporariamente bloqueada no cadastro de doadores. Alguns meses se passaram. Ela foi liberada para doar novamente, mas eu continuava impedido.

Até que veio um novo chamado.

Dessa vez, a informação era mais clara: meus exames indicavam que eu havia tido contato com o vírus da hepatite C.

“Mas Justo eu?“

A primeira sensação foi de susto.

Mas justo eu? Diretor de uma organização social que trabalha com conscientização sobre saúde e doação de órgãos e tecidos? Como isso poderia ter acontecido?

Minha cabeça começou a procurar respostas.

Uma endoscopia? Uma lâmina de barbear? Alguma das tatuagens que fiz ao longo da vida?

É natural tentar reconstruir o passado quando recebemos uma notícia assim. Queremos encontrar uma explicação, identificar um momento específico, entender onde tudo começou.

Mas nem sempre é possível descobrir quando ou como aconteceu uma exposição ao vírus.

Depois do susto inicial, veio também uma sensação de alívio. No meu caso, fui informado de que meu organismo havia reagido ao vírus e que os resultados indicavam uma situação diferente de uma infecção ativa. Para compreender exatamente o que isso significa, é fundamental considerar os exames e a avaliação médica.

A hepatite C pode passar despercebida durante anos. Muitas pessoas não apresentam sintomas e só descobrem que tiveram contato com o vírus por meio de exames.

E foi assim que uma situação inesperada me fez olhar para um assunto que eu já conhecia profissionalmente de uma maneira muito pessoal.

“A primeira lição: doar sangue importa, e muito!“

No Instituto GABRIEL, falamos constantemente sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Também reconhecemos o valor de outros gestos de solidariedade que ajudam a salvar vidas, como a doação de sangue.

Minha experiência reforçou algo em que sempre acreditei: doar sangue é um ato de generosidade que também envolve cuidado e responsabilidade com a saúde.

Durante o processo de doação, o sangue passa por uma série de procedimentos de triagem e testes laboratoriais para garantir a segurança de quem vai recebê-lo. Quando alguma alteração é identificada, o sangue não é utilizado e o doador pode ser orientado a realizar exames complementares.

Foi o que aconteceu comigo.

É importante esclarecer que a doação de sangue não substitui consultas médicas nem exames preventivos de rotina. Mas o processo de triagem pode identificar situações que merecem investigação e ajudar uma pessoa a procurar o acompanhamento necessário.

No meu caso, uma atitude que eu repetia todos os anos acabou levando a uma descoberta sobre a minha própria saúde.

E isso me fez pensar: quantas pessoas podem estar convivendo com uma condição que desconhecem?

“A segunda lição: precisamos falar mais sobre a hepatite C“

A hepatite C é uma infecção causada por um vírus que atinge o fígado. Ela pode evoluir sem sintomas e, quando não diagnosticada e tratada, causar complicações importantes ao longo do tempo.

A transmissão ocorre principalmente pelo contato com sangue contaminado. Entre as situações que merecem atenção estão:

  • Compartilhamento de agulhas e seringas, além de outros equipamentos que possam entrar em contato com sangue.
  • Materiais médicos e odontológicos sem esterilização adequada, bem como procedimentos realizados sem as medidas necessárias de biossegurança.
  • Compartilhamento de objetos pessoais, como lâminas de barbear e depilar, alicates de unha, tesouras e escovas de dentes que possam conter sangue.
  • Tatuagens, piercings e procedimentos de manicure e pedicure realizados com materiais contaminados ou sem esterilização adequada.
  • Procedimentos de saúde e transfusões realizados em condições inadequadas de segurança.
  • Transmissão da mãe para o bebê, durante a gestação ou o parto, que é menos frequente.
  • Relações sexuais, nas quais a transmissão é possível, embora menos comum do que em situações de exposição direta a sangue contaminado.

Essas informações não devem servir para alimentar o medo ou o julgamento. Devem servir para ampliar o conhecimento e estimular a prevenção.

Não é possível identificar a origem de uma infecção apenas olhando para uma pessoa ou conhecendo seus hábitos. E, muitas vezes, mesmo depois do diagnóstico, não conseguimos determinar exatamente quando ocorreu o contato com o vírus.

Por isso, informação, prevenção e acesso aos exames são tão importantes.

O Ministério da Saúde disponibiliza orientações sobre a hepatite C e suas formas de transmissão. Vale consultar a página oficial: Hepatite C — Ministério da Saúde

“E, afinal, qual é a conclusão?“

Não sei se algum dia conseguirei descobrir exatamente quando ou como tive contato com o vírus. Talvez essa resposta nunca venha. E aprendi que não preciso passar o resto da vida tentando reconstruir cada possibilidade.

Prefiro transformar essa experiência em algo útil.

Continuo acreditando na importância de doar sangue, de incentivar a doação de órgãos e tecidos e de falar sobre saúde com responsabilidade. Mas agora tenho uma experiência pessoal que reforça uma mensagem que antes eu transmitia principalmente pelo meu trabalho.

“Cuidar dos outros também passa por cuidar de nós mesmos.“

Se você é doador de sangue, continue valorizando esse gesto, respeitando os intervalos entre as doações e seguindo as orientações dos serviços de saúde. Se receber uma comunicação do hemocentro solicitando exames complementares, procure o serviço, esclareça suas dúvidas e faça o acompanhamento recomendado.

E, independentemente de ser doador, converse com um profissional de saúde sobre a necessidade de realizar testes para hepatites virais. O diagnóstico precoce faz diferença, e a hepatite C tem tratamento e pode ser curada.

Em dezembro, eu provavelmente continuarei lembrando da minha tradição de doar sangue e fazer uma tatuagem. Mas agora também vou me lembrar daquela cartinha recebida em 2025.

Não como um motivo de vergonha ou medo, mas como um lembrete de que ninguém está completamente imune aos imprevistos da vida.

Às vezes, um gesto que fazemos para ajudar outra pessoa também nos leva a descobrir algo que precisávamos saber sobre nós mesmos.

E essa descoberta, por mais inesperada que seja, pode se transformar em conscientização, cuidado e esperança.

Sobre o Autor

Bruno César é Diretor Executivo do Instituto GABRIEL.
Desde 2007 atua como Consultor em Management e Gerente de Projetos em organizações nacionais e multinacionais, no Brasil e México, no Terceiro Setor e Negócio Próprio de arte-educação. É Pós-graduado em Empreendedorismo Social e Negócios Sociais (FESP/Instituto Legado) Gestão de Recursos Humanos (UAM), Bacharel em Administração (Anhanguera Educacional), Técnico de Informática, Qualidade e Produtividade (UNICAMP). Especialidades: Gestão Estratégica e Engajamento de Equipes; certificado pela Phomenta como Fellow e pela PM4NGOs como Project Manager DPro (PMD Pro). Professor. Nos raros momentos de descanso gosta de ouvir rock anos 2000, assistir anime e comer churrasco.

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