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A espera de um transplante

Durante todo o ano de 2006 e primeiro quadrimestre deste ano, apenas 14% das pessoas que morreram em Sorocaba e nas 47 cidades da região tiveram seus órgãos doados para transplante. A complexidade na captação e os impedimentos impostos pelas famílias dos doadores estão entre os diversos obstáculos enfrentados para a doação. Entre 1 de janeiro de 2006 e 30 de abril de 2007 a OPO (Organização de Procura de Órgãos) de Sorocaba recebeu 154 notificações sobre possíveis doadores (pessoas que estavam internadas em hospitais e apresentavam suspeita de morte cerebral).
Cláudia Santos, coordenadora da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos do Conjunto Hospitalar, explica que alguns
órgãos só podem ser captados se o cadáver apresentar condições adequadas. “Mesmo após a morte encefálica, máquinas têm de manter o doador com o coração batendo para que o fluxo sanguíneo contínuo e a pressão arterial estável não deixem que os órgãos sejam comprometidos. A atenção tem que ser integral, pois corremos o risco de perdê-lo (o doador) a qualquer momento”, explica. Dos 154 possíveis doadores identificados entre 2006 e 2007, 75 (49%) tiveram parada cardíaca antes de terem órgãos captados e não foram aproveitados.O médico César Casonatti, coordenador da OPO em Sorocaba, explica que o processo que envolve a confirmação da morte cerebral e a localização de um receptor compatível pode ultrapassar 12 horas. “Os exames são complexos e os resultados demoram horas para ficarem prontos. O transplante é a última saída. O ideal seria que o país investisse em políticas de prevenção de doenças, para que os casos fossem tratados antes que houvesse falência dos órgãos”. De acordo com a legislação vigente, doentes à espera de um órgão aguardam em uma fila única nacional. Isso implica que um fígado captado em Sorocaba não necessariamente beneficiará a um sorocabano, mas sim a pessoa que ocupar a primeira posição na fila.

Familiares temem ‘violação’ do ente querido

Horas depois de receber a a notícia de que seu filho de 17 anos havia morrido ao ter a bicicleta atingida por um carro, a dona-de-casa Gisele Fernandes Dias, 35 anos, pediu para assinar a documentação autorizando a doação dos órgãos. Muitas famílias, no entanto, proíbem a doação por medo de terem o corpo do ente querido “violado”. O médico César Casonatti afirma que entre as recusas, fatores religiosos são maioria. “Existem pessoas que afirmam ter medo que o corpo chegue incompleto à outra vida”. Dos 23 cadáveres que tiveram órgãos captados em Sorocaba nos últimos 16 meses, 15 eram homens e oito mulheres. No total eles doaram cinco pâncreas, 25 rins, 16 fígados e quatro pulmões, além de córneas e outros órgãos e tecidos.

Fonte: Bom Dia Sorocaba

Gisele Fernandes doa os órgãos do filho adolescente morto em acidente: “Sempre abordei o assunto com a família” 

Só 14% dos mortos na região de Sorocaba têm órgãos doados; famílias impedem 11% das captações.

Assis Cavalcante/Agência BOM DIA 

A dona-de-casa Gisele Dias havia conversado com a família sobre doação mesmo antes do acidente que vitimou o filho Marlon Bruno Fernandes. “Eles sempre foram conscientizados e sei que meu filho concordaria com a decisão que tomei. Saber que existiam pessoas sendo beneficiadas ajudou toda a família a passar pelo momento de perda”, disse.

Segundo a OPO de Sorocaba, os órgãos e tecidos captados do adolescente beneficiaram mais de 100 pessoas. Entras as captações estavam fígado, pâncreas, coração, rins e até ossos. Três dias depois da morte de Marlon, o Hospital de Base de Bauru transplantou um de seus rins em M.L.F.L., 37 anos, que sofria de insuficiência renal crônica e há 4 anos e meio realizava sessões diárias de hemodiálise. Atualmente o Conjunto Hospitalar de Sorocaba faz 95% das captações de órgãos na região. O transplante é feito na cidade onde está o receptor. A Secretaria Estadual de Saúde não tem levantamento sobre o número de sorocabanos à espera de um transplante.

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